José Osmar Medina Pestana venceu a infância pobre para deixar
suas digitais na história dos transplantes brasileiros.
Entre uma ponta e outra desta trajetória, passaram três
instrumentos de trabalho por suas mãos: tijolos, peças industriais e rins.
Isso porque, a transformação do menino Zé Osmar em Doutor Medina
foi formada pelas profissões ajudante de pedreiro, torneiro mecânico e, por
fim, nefrologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Ele acaba de assumir a
presidência da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) e, no
primeiro ato como presidente, no início de fevereiro, divulgou um novo recorde de cirurgias do tipo no cenário nacional.
Mais uma vez, os transplantes renais foram os mais numerosos, a
maior parte deles feita no Hospital do Rim da Unifesp, unidade idealizada e
administrada por Medina. O médico acumula 10 mil pacientes transplantados,
quase a população total de Ipaussu, cidade do interior paulista onde ele nasceu
(são 13 mil habitantes segundo o Censo 2010) e escolheu que “queria cuidar de
gente” quando fosse gente grande.
O sonho da carreira, inclusive, foi construído simultaneamente à
construção (literal) de casas. Ajudar o pai pedreiro foi seu primeiro ofício,
assumido aos 8 anos, para melhorar a renda da família e, de quebra, alimentar a
possibilidade de conseguir um diploma na área da saúde.
Metas
“Minha mãe era costureira, meu pai pedreiro e tínhamos uma vida
simples, mas eu não sentia tantas privações. Só não gostava de ter de abdicar
das minhas férias para ajudar papai com o cimento e a construção. Mas sabia que
isso era necessário”, lembra Medina.
Mais
velho de cinco irmãos, craque na bola de gude e no futebol “pé na terra”, ele
foi o primeiro a ser incentivado pelos pais a estudar e fazer um curso técnico.
“Minha mãe, apesar de pouco estudo, era muito sábia. Ela logo me orientou que
esta era a melhor forma de, ao mesmo tempo, ter acesso à educação e a um
trabalho.”
Por isso, aos 15 anos de idade, o pai dos Medina Pestana perdeu
seu melhor ajudante. Com diploma de torneiro mecânico, ele passou a trabalhar
em fábricas, com peças automotivas, e fazer seu pé de meia.
Nesta época, já gostava de passear na Santa Casa de Ipaussu e
observar o seu primeiro herói da infância. “Doutor Rafael tinha um talento para
tratar nosso povo. Não eram só cuidados médicos. Eram ouvidos atentos para as
reclamações de toda sorte, retribuídas com conselhos para todas as áreas da
vida”, lembra.
Aquele médico que circulava por todas as casas, comércios,
praças e bailes da cidade implantou na cabeça de Zé Osmar uma meta audaciosa.
Antes de completar 20 anos, ele deixaria Ipaussu, trabalharia um ano na capital
paulista, juntaria dinheiro. “Precisava fazer um ano de cursinho e então
entraria na faculdade de medicina”, finalizava com esta frase os seus pensamentos.
Rotinas
Aos 19 de idade, o jovem fez as malas, deu um beijo na testa da
mãe e mudou para a cidade grande. Trabalhou na Volks (com os seus conhecimentos
de torneiro mecânico) e como auxiliar de escritório. Doze meses depois,
dormindo em um quartinho emprestado na casa do tio no ABC Paulista, ele fez a
matrícula em um curso preparatório para o vestibular. E se preparou para mais
12 meses de maratona.
A
rotina de 12 horas de trabalho foi substituída por 12 horas de estudo. Em
dezembro de 1974 encontrou seu nome entre os aprovados para ingressar na Escola
Paulista de Medicina (Unifesp), instituição pública, um alívio para o “bolso
apertado” do estudante.
“Estava na hora de voltar a trabalhar. Não precisaria pagar os
estudos, mas ainda tinha que me sustentar em São Paulo.”
O novo emprego foi no laboratório da própria Unifesp,
catalogando os pacientes que chegavam à emergência. O horário, das 16h às 23h
permitia dedicação aos estudos médicos entre 7h e 15h. E ainda servia de
aperitivo das muitas especialidades médicas que José Osmar Medina poderia
escolher.
Rins
Ele flertou com a ortopedia, mas por sugestão de um professor
escolheu os rins como foco de atuação. Já tinha deixado a casa do tio, agora
morava em uma república com outros seis estudantes. Por influência dos colegas,
adotou definitivamente o nome Medina como sua identidade. A nefrologia,
ele definiu como seu destino.
Zé Osmar ficava para trás, mas o Medina também gostava de
metas audaciosas. Em 1987, já formado, casado (com a primeira namorada de
Iapussu) e decidido, ele foi para o exterior fazer especialização em
transplante. Quando voltou ao Brasil decidiu organizar uma unidade com fluxo
para cirurgia de transplante renal, ainda inexistente em SP.
“Não
tínhamos integração, procedimento, profissionais especializados. Em equipe,
fomos formando tudo isso”, lembra. Em menos de uma década, aquele embrião do
Hospital do Rim virou uma potência mundial. Os 15 transplantes renais anuais
viraram 500 cirurgias por ano em 2004, um recorde no mundo, que rendeu novas
chances de vida para milhares de pacientes e homenagens em vários idiomas ao
doutor Medina. Hoje já são quase 700 transplantes a cada 12 meses só nesta
unidade.
Dez mil
O auxiliar de pedreiro, torneiro mecânico e médico que moram em
Medina trabalham em uma espécie de sintonia na hora dos transplantes. É preciso
arquitetar a cirurgia, parte por parte, como a construção de um um novo
organismo; depois encaixar todas as peças precisamente em um tipo de
esquema industrial. Para em sequência, cuidar a vida toda daquele ser humano
que ganhou um novo órgão.
“É a oportunidade que nós médicos temos de unir os dois extremos
da medicina. Desde os cuidados mais simples, como medir a pressão, colocar a
mão no paciente, até a mais alta complexidade cirúrgica”, explica. “É mágico”,
define Medina que, para homenagear o seu herói Daniel, duas vezes por ano volta
a Ipaussu e trabalha por duas semanas, de forma voluntária, na Santa Casa.
Ouvindo queixas de toda sorte e dando conselhos sobre tudo.